terça-feira, 2 de novembro de 2010

Resposta a Mayara Petruso, jovem paulista estudante de direito

Esclarecimento: o texto abaixo é de autoria de Nilvanete Ferreira da Costa, cujo nome é muito parecido com o meu; sou sua irmã e responsável pelas postagens deste blog. Vai publicado aqui porque, pela extensão, não pode ser publicado no Twitter nem no Facebook, onde Mayara Petruso deixou provas (apagou, depois das reações na net) da pobreza de suas ideias a respeito dos nordestinos. Sabemos todos o que o etnocentrismo provocou na II Guerra.

http://www.revistaforum.com.br/blog/wp-content/uploads/2010/11/mayara-21.jpg

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"Resposta à jovem paulista estudante de direito, Mayara Petruso, ou simplesmente “May”
As suas postagens no Twitter (“Nordestino não é gente, faça um favor a Sp, mate um nordestino afogado!”) e no Facebook  ("AFUNDA BRASIL. Deem direito de voto pros nordestinos e afundem o país de quem trabalhava pra sustentar os vagabundos que fazem filho pra ganhar o bolsa 171”), em reação à eleição da Dilma, a par de revelar desconhecimento dos dados da eleição (já que, expurgados todos os votos do Nordeste, Dilma ainda se elegeria com uma diferença de mais de um milhão de votos) assustam e produzem emoções que vão da perplexidade à indignação.
A perplexidade inicial se deu em razão de tão desrespeitosas e preconceituosas palavras partirem de uma “jovem estudante de direito”. Em primeiro lugar, porque o jovem sempre é promessa do novo; em segundo, porque aos atuais estudantes de direito se reservam os postos de operadores do direito, de advogados e, mais que isso, na composição do poder Judiciário, cujas cortes superiores têm papel fundamental na distribuição da justiça e na discussão de questões de profundo impacto na vida republicana. Aliás, “May”, parece que você esqueceu rapidamente – ou simplesmente não aprendeu, não conheço o seu desempenho acadêmico -  as balizas dadas pela Constituição da República Federativa do Brasil. Estão lá, entre os objetivos findamentais da República, a construção de uma sociedade livre, justa e solidária, e a promoção do bem de todos, sem preconceitos de origem, raça, sexo, cor, idade e quaisquer outras formas de discriminação. Está lá também, no art. 5º, que todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer naturezaPoderia ir muito além, mas deixo por sua conta (re)visitar a nossa Carta Maior.
Quanto à indignação... bem, você se refere aos nordestinos como “vagabundos que fazem filhos para ganhar o bolsa 171”!  
Menina, você não sabe do que está falando...
Sou nordestina. Nasci numa minúscula cidade no interior da Paraíba, dessas tantas esquecidas pelas políticas públicas. Contava a cidade com não muito mais que uma igreja, uma biblioteca pública e um grupo escolar, que oferecia ensino até a 4ª série do primeiro grau. Meus pais tinham um pequeno sítio nas cercanias da cidade e uma pequena mercearia, dessas que vendem “de um tudo”, desde o feijão e a farinha até o fumo de rolo, passando pelos tecidos de chita colorida até o sabonete e a pomada minâncora. Minha mãe, que tocava a mercearia, mantinha uma caderneta onde anotava os “fiados”, as compras que os moradores da região faziam para pagar Deus-sabe-quando, ou seja, quando depois da safra (se safra houvesse) vendessem o produto.
Quem viveu naquelas terras ressequidas tem a dimensão exata do que quis dizer Euclides da Cunha quando escreveu que o sertanejo é “antes de tudo um forte”. Não se trata de mera figura de retórica. Nas áreas rurais, historicamente menos assistidas, sobrevivendo a uma terra inóspita, com escassos recursos, alimentando-se muitas vezes de farinha e rapadura – e, quando isso faltava, de palma, calango e do mais que minimamente pudesse ser convertido em refeição -  o sertanejo aprendeu a tirar forças de seus instintos ancestrais para driblar a morte.
E aprendeu a fazê-lo com altivez impressionante. Mesmo diante das maiores dificuldades, nada feria mais a honra de um sertanejo do que pedir uma esmola para alimentar seus filhos, de ventres marcadamente túrgidos, em decorrência da desnutrição crônica. Ele preferia vender a sua força de trabalho a preços aviltantes a pedir esmola. Suas mãos calejadas e sua pele tostada e vincada pelo sol – num mimetismo involuntário e cruel com a própria terra tostada e sulcada – nada mais eram que o invólucro de uma alma resiliente, de força inesgotável.
Esse sertanejo, May, tem servido ao longo dos séculos a propósitos nada nobres. Políticos inescrupulosos sempre souberam usá-lo como massa de manobra. Para que prover-lhe serviços públicos essenciais, como educação e saúde de qualidade? Por que prover-lhe cidadania? Dar-lhes consciência política? Não... a esses propósitos sempre interessou manter essa massa sob curto cabresto, como se fora uma sina.
Cabe dizer que o estudo, a educação formal sempre foram vistos pelos nordestinos como meio de redenção, de libertação. Assim é que aquelas famílias que tinham posses mínimas faziam todo o esforço para encaminhar seus filhos para estudar em cidades maiores ou na capital dos estados (lembro-me claramente de minha irmã mais velha, que passava horas trancada no quarto estudando, lendo Nietzche, Platão, Aristóteles...). Assim foi com os meus irmãos mais velhos e comigo, que aos 11 anos fui estudar numa cidade vizinha.  
O fato é que décadas, séculos de ausência de políticas públicas efetivas produziram a “indústria da seca” e o grande êxodo rural. Uma multidão de desvalidos, desamparados, passou a migrar para outras regiões do País, principalmente para São Paulo, em busca de uma vida melhor. A esse propósito, “May”, essa mão de obra farta e barata ajudou a construir os arranha-céus, o parque industrial, as pontes e viadutos dessa cidade maravilhosa que é São Paulo.         
Humberto Teixeira e Luiz Gonzaga imortalizaram na poética “Asa Branca” a dor
 e a esperança do sertanejo que, diante da seca indômita, migra para outras paragens à espera de que a chuva volte ao sertão e faça verdejar de novo a plantação, fonte de sobrevivência (“quando o verde dos teus olhos se espalhar na plantação...”). Mas as intempéries do clima não se limitavam à seca. Muitas vezes as chuvas chegavam, depois de um longo estio, com uma força tal que destruía tudo que havia sido plantado. Isso também foi imortalizado por Luiz Gonzaga na belíssima “Súplica do Cearense” (“Oh! Deus, será que o senhor se zangou, e só por isso o sol arretirou fazendo cair toda a chuva que há...”).
Aqui uma observação relevante: não sou entusiasta de política assistencialista, particularmente se ela não for acompanhada de medidas voltadas para a promoção da autonomia, da cidadania: educação, saúde, segurança, geração de emprego, preparação para o mercado de trabalho, entre outras. De outro modo, estaremos perpetuando os cabrestos. Creio que somente com políticas públicas efetivas poderemos dar concretude ao princípio da igualdade.   
Por outro lado, “May”, a fome não pode esperar. Aí temos um outro princípio fundamental, que é o da proteção à vida. Não dá para pedir a quem tem fome que espere 10, 15 anos para que as políticas surtam efeito. Por isso entendo e existência de políticas públicas como o bolsa-família, com todos os riscos envolvidos. Cabe a nós, cidadãos politizados, sermos vigilantes e cobrarmos dos governantes a correção dos rumos.    
Bom, “May”, acho que já falei o suficiente para deixar claro que rejeito veementemente o adjetivo de vagabundo para o nordestino. Da próxima vez, antes de regurgitar sua frustração numa rede social, provavalmente do conforto de seus lençois e com a fome saciada, pense um pouco mais. Leia (você lê? A esse propósito, recomendo “Vidas Secas”, de Graciliano Ramos), informe-se. Prepare-se para exercer a profissão que escolheu de uma forma edificante.
Sobre as eleições presidenciais 2010, ainda que o resultado não tenha sido do seu agrado, isto já não é relevante. Faça um tributo à democracia e reconheça a vontade soberana do povo, expressa nas urnas. Você nã precisa concordar, não precisa abrir mão de suas crenças e convicções. Apenas respeite a divergência. Assim se fará respeitar também. E contribuirá para o fortalecimento da democracia.
Brasília, 2 de novembro de 2010.
 
Nilvanete Ferreira da Costa
Nordestina, mulher, cidadã brasileira"

10 comentários:

mar vázquez disse...

Prezadas irmãs,

Quero agradecer por ter a oportunidade de ler um texto tão honesto, digno e, sobretudo, humano (no melhor sentido do termo, se é que ainda isso é possível) tão diferente dos disparates metralhados por tão pobre menina rica...
Ps: sou paulista e repudio peremptoriamente tais absurdos!
Bjs,
Mari.

Nivaldete disse...

Agradecemos nós pela sua honrosa participação, Mari! Um abraço.

Mara disse...

Eu só gostaria de citar uma coisa,não tô nem ai com essa"estudante",mas gostaria de pedir a esses ditos sociólogos que parem de se referir a nós nordestinos como mão de obra que ajudou a construir São Paulo.Nordestino é povo brasileiro!é tambem dono dessa terra, se é que ela tem dono,então seriamos nós nordestinos usando a lei de USO CAPIÃO, mais donos que voces paulistas, não é mesmo Mayara? se é que sabe o que é isso!no mínimo é mais uma UNIVERSITÁRIA que papai pagou para entrar numa universidade brasileira. E volto a nossos sociólogos renomados! Por favor citem nomes de nordestinos que fizeram e fazem a diferença no país e no mundo, e olhe!vai tarefa árdua afinal meu nordeste é grande em extensão,em cultura,em amor pela sua historia,em orgulho pelo seu país.Não vai ser a opinião de uma centena de gente que não sabe nada da sua historia que vai abalar nossa estrutura.EU AMO MEU POVO!

Nivaldete disse...

Desabafou bem, Mara! Obrigada. Um abraço.

Anônimo disse...

Também faço parte dessa terra tão discriminada,cito: no blog do Reinaldo Azevedo da Veja,dá prá ter uma noção do que é racismo e acho que a OAB deveria investigar os comentários alí postados. Não podemos deixar impune tais pessoas.

Carmem disse...

É dificil ser importante e incomodar tanta gente! Afinal, apesar de todas as adversidades nós nordestinos continuamos sendo a força cultural e criativa desse pais maravilhoso! Mas concordo com a Mayara: talvez se esses tão competentes cariocas, paulistas, mineiros que ajudamos a eleger após a ditadura militar tivessem feito seu trabalho direito e visto o Brasil como o todo que ele de fato é em vez de investir na educação e na industrialização apenas do sul e do sudeste... e se o maranhense, o alagoano e o pernambucano que também ajudamos a colocar na presidência tivessem olhado apenas para o nordeste...talvez a desigualdade diminuisse de forma gritante e ela não tivesse que ser tão contrariada em seu lindo sonho de menina rica. Até porque, talvez, apenas talvez, tendo que passar por alguma adversidade como nós passamos diariamente, seu cérebro conseguisse evoluir de maneira tal, a fazê-la pensar diferente.

Carmem Lúcia Machado
Imperatriz/MA

Nivaldete disse...

Carmen Lúcia e Anônimo, muito obrigada pela colaboração. Fizeram bem em somar a voz de vocês, aqui. Obrigada.

claudia r. disse...

Sou brazuco-texana nascida em Fortaleza..Sim,sou nordestina e com muito orgulho..Meu pai e' advogado e nunca me ensinou tal infamia...Xonofobia e' falta de etica...Ando odiando o oxigenio que ela anda respirando...Nao sinto pena dela...mas vou coloca-la na justica....Cearense com raiva..Sai de baixo...

૪ Amaanda disse...

Se tem alguém que deveria ser afogada,esse alguém é você MAYARA PETRUSO !
Seria o MELHOR para todos menos uma idiota,burra que não sabe nem escrever.

Théo disse...

Poxa, esse texto é lindo e tão bem elaborado.Isso sim é o nordestino, ela que estudou e teve tudo não foi seria capaz de escrever um texto tão belo e tão verdadeiro.Sou cearense de Fortaleza, e, sinceramente, me emocionei ao ler este artigo que conta o quanto o nordestino é guerreiro e vai em busca de seus sonhos sem esperar por nenhum governo!Só espero que ela - Mayara Petruso - tenha visto este texto para aprender como se é que se aproveita uma ferramenta tão importante como a internet!!!