segunda-feira, 20 de setembro de 2010

A censura da OAB-SP às obras de Gil Vicente e a arte de ver


A Ordem dos Advogados do Brasil-OAB/SP, como é sabido, solicitou aos curadores da 29ª Bienal de São Paulo a retirada, dessa amostra, das obras de Gil Vicente. A razão é que o artista aparece, nos desenhos, 'atentando' contra a vida de pessoas proeminentes na política nacional -o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso e o presidente Lula, particularmente. Isto ficou entendido como apologia ao crime e desrespeito ao poder constituído. 

O anedotário no campo das artes plásticas tem muitas historinhas interessantes. Há a de um pintor modernista que, diante do espanto de alguém por ver pintada num de seus quadros uma mulher verde, assim respondeu: mas isso não é uma mulher, é uma pintura...


Ao censor apressado falta, sobretudo, considerar que a arte tem um sentido simbólico, uma carga metafórica/alegórica subjacente à sua visibilidade. Tomá-la a partir somente da superfície é dar-lhe um estatuto de propaganda de eletrodomésticos: um refrigerador é um refrigerador.

É preciso desenvolver e cultivar esta outra arte: a arte de ver. Não tornar-se refém da similaridade visual*. Levar em conta que há o manifesto e o latente. Ser capaz de interpelar o que se vê, de modo que se descubram sentidos ocultos por trás do 'óbvio', e que podem contradizer o que está oferecido ao olho. 

Os desenhos de Gil Vicente chocam, mas isso é próprio da arte deste tempo: desentorpecer, inquietar. E, vendo-os na contramão da aparência, podem estar carregados, paradoxalmente, de um desesperado apelo pela vida. E talvez ele esteja perguntando: e se a violência chegasse aos senhores?... 
O truque é do artista. Cabe a cada um pensar, em vez de se restringir à pura visibilidade.


Veja matéria sobre a polêmica aqui: Jornal Folha de São Paulo

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*Quando for o caso: há obras que não remetem a nenhuma referência externa, como a arte abstrata.

Um comentário:

Jeane Porfírio disse...

É uma pena mesmo que pessoas que se jugam defensores, deixem de entender a arte (ou não querem entender), simplesmente por está criticando alguém importante. Onde está o nosso direito de reivindicar o que nos causa pavor. Será que temos que ficar calados, simplesmente por que alguém do poder se sentiu incomodado? - Não, nós artistas temos que mostrar pra sociedade, que não estamos conformados com o rumo do país.

VIVA GIL
PARABÉNS NARA