sexta-feira, 7 de maio de 2010

Ensaio de Márcio de Lima Duarte


MENINOS DE SÍTIO: ETNOGRAFIA, MEMóRIA E AFETO

                                                                                              Márcio de Lima Dantas
                                                                              Professor de Literatura Portuguesa da UFRN
                                               7marciodantas7@gmail.com


O memorialismo, na sua visão mais ampla, inclui além dos livros de memória, diários íntimos, cartas, confissões e autobiografias, inscrevendo-se como um gênero literário, mesmo que o autor queira imprimir ao texto um caráter de objetividade. Essa literatura de extravasamento do eu como que acontece pela necessidade de preservar e repartir o vivenciado, de reviver, através de um olhar em direção ao passado, experiências que se desejam conhecidas. Com efeito, não se trata apenas de valorizar o ontem em oposição ao presente, mas uma tentativa de fixar reminiscências como paisagens de grandes murais para serem vistas através da janela do tempo.
 Nesse sentido, muitas vezes a escansão cronológica e o tempo interior se fundem num só amálgama capaz de resguardar as imagens evocadas pela memória, mesmo que em alguns autores, infelizmente, esteja eivado de saudosismo idealizador daquilo que foi vivido no passado, morto e sepultado. Como gênero delimitado no campo literário, as memórias podem adquirir um caráter agridoce, aproximando-se assim do romance ou mesmo da tragédia; por vezes, encontra-se plena de um olhar perscrutador capaz de deixar vestígios de história, etnografia ou sociologia no corpo do texto, adquirindo um alto valor social e humano.
É o que sucede no livro, em 2 ed., “Meninos de sítio: falando sobre cultura sertaneja” (BEZERRA, Celina; ARAÚJO, Laércio Bezerra de; AMMANN, Safira Bezerra. Natal: Gráfica Nordeste, 1997), cujos capítulos tratam com propriedade e zelo  dos costumes e sensibilidades que o tempo, como é natural, acabou por substituir por formas mais condizentes com o espírito da época.  Sendo assim, o livro entalha-se como notável contribuição aos estudos de natureza sócio-estético-antropológica, na medida em que se deterá sobre a cultura material e espiritual de uma cidade do interior norte-rio-grandense; outrossim, pode ser compreendido como a forma de um viver sertanejo vinculado à região do Seridó, comarca que durante eras foi resguardadora das nossas tradições vinculadas à agropecuária, detendo hábitos bastante peculiares; curiosamente, sempre foi um celeiro de talentos para alimentar o nosso cabedal de homens voltados para a ciência e a arte (pintores, pesquisadores, jornalistas, escritores).
O livro é uma excelente solução de continuidade a uma linha do memorialismo de autoria feminina da literatura norte-rio-grandense, que tem um dos seus mitos fundantes no livro OITEIRO: MEMóRIAS DE UMA SINHÁ-MOÇA de Magdalena Antunes, no qual há uma mescla de subjetividade aliada aos conteúdos de caráter histórico e etnográfico. Outros dois bons livros alinham-se nesse veio de minério tão precioso, a saber: A VIDA EM CLAVE DE DOR de Zenaide Costa (São Miguel) e CARTAS DA INFÂNCIA de Lêda Gurgel (Timbaúba dos Batistas). Todas elas detém um traço em comum, a linguagem eivada de afeto desenha o micro e o macro com precisão e forte poder descritivo, quase que obrigando o leitor a uma saudável empatia com os costumes rememorados.
            Acredito que em MENINOS DE SÍTIO haja um maior cuidado em deixar codificado, para as pósteras gerações, o modo de vida nas fazendas sertanejas, pois é possível encontrar de maneira detalhada costumes do sertão do nunca-mais, tão caro a Oswaldo Lamartine, que nos revelou um universo físico e cultural fascinante e pleno de riquezas paisagísticas, bem como as criativas soluções do homem no seu embate com as forças físicas.

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