sábado, 10 de abril de 2010

Sobre Fernando Coelho

O PARAISO COLORIDO de Fernando Coelho

"A cada pintor seu paraíso"
Gastón Bachelard

A pintura de Fernando Coelho se apresenta a nossa contemplação como
uma construção lúdica, cheia de efeitos cromáticos onde saber e afeto
marcam presença. Um verdadeiro paraíso habitado pela passagem do tempo
que imprime na tela, através do olhar desconfiado e da mão
comprometida com a elaboração artesanal, imagens de uma infância que
perdeu a ingenuidade, teme o futuro e a incerteza da vida. Assusta e
fascina. O presente registrado na tela é um conjunto de elementos
acumulados na memória. A pintura renasce da arqueologia da memória de
um tempo imemorial carregada de sentimento humano, para o pintor,
pintar e sonhar são motivos para viver e trapacear as maldades do
mundo.

Figuras perturbadoras de desenhos lúdicos e expressionistas realizados
há cerca de trinta anos atrás, reaparecem na superfície das obras
atuais. Entre a figura e a abstração, a pintura desse artista, nesse
momento, com a utilização de recursos de colagens que foi um
procedimento importante na evolução do cubismo, ritmo intenso e
explosão cromática, alcança uma nova dimensão, afirma sua força diante
das outras linguagens da contemporaneidade e exalta a atualidade desse
velho suporte.

Composições densas, elaboradas, mas sem perder a espontaneidade. A luz
transborda, a cor chega ao êxtase. Sem fazer concessão ao belo do
senso comum, o artista despreza a realidade para refazer a pintura
plena, onde nada ocupa o espaço sem uma razão, mesmo que
paradoxalmente, esta seja da ordem da emoção. Os efeitos plásticos
obedecem a uma organização própria.

Esse paraíso infantil e colorido com um jardim florido ao redor é um
grito contra o desaparecimento do amor no mundo da máquina. No meio de
tanta alegria e humor alguma coisa emerge do fundo do quadro que
parece pressentir a ameaça do desconhecido, do futuro. Sem deixar de
ser ao mesmo tempo um lugar artificial para responder às provocações
especificas da forma, da cor, do gesto angustiado e o porquê da
figura. Difícil identificar o que ocorre no interior de uma cabeça
lamenta o pintor com suas cabeças fantasmagóricas. As causas e os
efeitos não estão evidentes, fazemos a identificação e arriscamos
conclusões a partir de nossas próprias carências e da nossa vontade
sempre renovada de ver.

A ação da cor fala, dá vida às formas e às imagens. O pintor
desenhista, com toda sua sensibilidade para a cor, inventa outra
natureza e outra anatomia, com uma agitada gestualidade para
reverenciar o expressionismo. Tudo que está na tela quer ser visto de
forma dramática, sem rejeitar as atribuições individuais de sentido. O
espectador embriagado de tanto ver, descobre a euforia da infância e a
solidão da velhice, registradas pelo devaneio do pincel do artista.
Cada tela narra um sonho ou um pesadelo, com resultado estético capaz
de fazer um convite para uma meditação sobre a natureza das coisas e
da arte, como um processo aberto à vivência do sujeito.

As figuras aparecem não por acaso, elas existem no inconsciente do
artista. Uma festa de referências infantis: jogos, máscaras, palhaço,
maestro, fantasmas que falam de um passado não resolvido. A vida
parece uma brincadeira, um instante que passa e deixa no ar um riso ou
um gemido. Com toda sua autonomia pictórica, é impossível abstrair
dessas pinturas as conotações fora do mundo da arte, mas elas não são
pontos de apoio, são motivos para o sujeito experimentar e realizar o
desejo de pintar. A subjetividade que emerge do fundo da tela, o que
foi recalcado fica em segundo plano, os efeitos pictóricos falam mais
alto.

Almandrade

(artista plástico, poeta e arquiteto)

Em abril, dia 15, Fernando Coelho estará em Lisboa, Portugal,
apresentando seus novos trabalhos, na galeria Art Lounge.
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2- poemas:

UMA PINTURA

O paraíso
contorna o olhar
do pintor.
Sede de ver
natureza morta
sem asas.
Meditações
de um pincel
que disseca
a beleza.

Almandrade


A memória da pintura
registra
as aventuras do gesto
o tempo secreto
é um tema
que faz do belo
um mistério
sobre o mundo.

Almandrade

(recebido por e-mail)

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