domingo, 28 de março de 2010

Hélio Oiticica

"LIBERDADE MARGINAL

Para Hélio Oiticica a arte era uma opção de vida contra toda e
qualquer forma de opressão: social, intelectual, estética, política...
Inventor, teórico, refletiu e interrogou a brasilidade e a
universalidade da arte, sempre inconformista e indiferente à moda. -
Arte concreta, Neoconcretismo, Parangolé, Tropicália, vanguarda
brasileira dos agitados anos 60, White Chapel Galery (Londres), seis
ou sete anos de Nova Iorque; uma vida de tensão em fazer arte e
habitar o mundo. Ao romper com o objeto/arte como coisa destinada à
visualidade (relação “contemplativa”), busca o tato e o movimento,
repõe a sensibilidade recalcada pelo tecnicismo do movimento concreto.
Cor, estruturas, palavras, fotos, dança, corpo, definem a obra. A
participação física é o centro e o interlocutor do acontecimento/arte,
o conceito de visão envolve todo corpo, difícil não pensar na
fenomenologia de Merleau-Ponty.

Nas palavras de Mário Pedrosa, em 1965:

“A beleza, o pecado, a revolta, o amor dão à arte deste rapaz um
acento novo na arte brasileira”.

O trabalho de Hélio Oiticica teve uma inserção no ambiente cultural de
vanguarda deste país, no momento de sua maior produtividade. Dos
Metaesquemas (desenhos em 58/59, quando o artista era integrante do
grupo Frente) aos ambientes de 69, um percurso que incorporou a
improvisação e a expressividade corporal para construir um trabalho.
Rompeu com a noção de quadro e libertou a cor da relação figurativa. A
cor deixou de ser um aspecto visual, nos ambientes e nos objetos, o
espectador era convidado para o contato físico. Penetráveis
(maquetes). Bólides (objetos de vidro com pigmentos para serem
manipulados), Parangolés (capas para vestir o corpo). Passista da
Mangueira. Tropicália.

“Tropicália é a primeiríssima tentativa consciente, objetiva, de impor
uma imagem obviamente brasileira” ao contexto atual da vanguarda e das
manifestações em geral da arte nacional. Tudo começou com a formulação
do Parangolé, em 1964, com toda a minha experiência com o samba, com a
descoberta dos morros, da arquitetura orgânica das favelas cariocas (e
conseqüentemente outras, como as palafitas do Amazonas) e
principalmente das construções espontâneas, anônimas nos grandes
centros urbanos – a arte das ruas, das coisas inacabadas, dos terrenos
baldios, etc.”
H.O.

“Propositadamente quis eu, desde a designação criada por mim de
“tropicália” (devo informar que a designação foi criada por mim, muito
antes de outras que sobrevieram, até se tornar a moda atual), até os
seus mínimos elementos, acentuar esta nova linguagem com elementos
brasileiros, na tentativa ambiciosíssima de criar uma linguagem nossa,
característica, que fizesse frente à imagética Pop e Op
internacionais, na qual mergulhava boa parte de nossos artistas”.
H.O.

Uma manifestação ambiental em que, ao penetrá-la, o espectador era
bombardeado por imagens sensoriais, devendo reagir com todos os
sentidos, a Tropicália foi instalada pela primeira vez em 1966, no
Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro. Irreverente, rigoroso e
anarquista ao mesmo tempo, coerente com suas propostas, tinha um
perfeito domínio intelectual sobre seu próprio trabalho. Mais do que
uma instalação de arte, a Tropicália era um pensamento avançado sobre
a arte brasileira.

“Como se vê, o mito da tropicália é muito mais do que araras e
bananeiras: é a consciência de um não condicionamento às estruturas
estabelecidas, portanto altamente revolucionário na sua totalidade.
Qualquer conformismo, seja intelectual, social, existencial, escapa à
sua idéia principal”.
H.O. – 1968.

A experiência de Hélio Oiticica parte do concreto para a periferia do
projeto construtivista, adotando procedimentos estranhos como: a
marginalidade, a crítica à produção industrial, a participação do
corpo na leitura da obra. No princípio era Mondrian e Malevitch;
depois, o outro lado da modernidade: Marcel Duchamp. Uma trajetória
exemplar, na forma como transformou o seu trabalho, fazendo da
existência a condição da arte. A vida de um artista não explica a
obra; mas, se comunicam, principalmente no caso de Oiticica. Seu
trabalho é resultado de sua relação tensa com o cotidiano, que via na
marginalidade uma idéia de liberdade; aliás, o artista não é um
marginal que empresta seu corpo ao mundo, para transformá-lo em
pintura?! (Marleau-Ponty). Com a Tropicália, Oiticica submeteu a
brasilidade a uma inteligência rigorosa, sem perder o referencial
poético. Uma proposta cultural que buscava algo à margem, ou melhor,
entre “o visível e o invisível”; construir, com a experiência
sensorial, um pensamento.

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Almandrade
(artista pástico, poeta e arquiteto)

salvador, 1990"
(recebido por e-mail)

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