sexta-feira, 19 de março de 2010

A exposição de Vicente Vitoriano no NAC: infância da letra



Nivaldete Ferreira




O artista


Aconteceu ontem, na galeria do Núcleo de Arte e Cultura-Universidade Federal do Rio Grande do Norte, a abertura da exposição de Vicente Vitoriano que, além de artista plástico, curador e crítico de arte, é professor no Departamento de Artes dessa mesma universidade.
A PALAVRA PINTADA -assim se chama a exposição.
Ut pictura poesis (uma pintura é como uma poesia). Esta proposição remonta aos antigos, sabe-se, e se liga a uma concepção literária da arte. Então havia, já, uma compreensão do que hoje se chama, de forma quase exaustiva, de hibridização, ruptura de fronteiras, diluição de uma lingugem em outra. Numa palavra, mistura.

Vicente Vitoriano faz, com sofisticada simplicidade, essa familiarização pintura/palavra, pintura/letra. Não se trata de culto à antiguidade, mas de trazer de lá um insight semiótico que assim se define: atemporal. À semelhança daquele ocorrido em Heráclito de Éfeso (séc. VI-V a. C.): "A harmonia mais perfeita é semelhante a um monte de esterco feito ao acaso" (GOMES, 1973, p. 150). Vemos: os bons dizeres atravessam os tempos.

O que Vitoriano faz parece uma apropriação/atualização que revela uma certa infância da letra, entendendo-se essa infância como ludicidade e desautomatização. Pois esquecemos que letras são desenhos!
Ele cria também caligrafias (cali -> kalos, belo), mas caligrafias propositalmente ilegíveis, produzidas, como ele diz, em fluxo automático, algo dadá. Irrecusável lembrar o James Joyce de Finnegans Wake - uma língua impossível, uma alíngua. É que a arte pode ser abstrusa, impossível; pode não dizer, ou dizer trocando letras. Ou apenas sugerir... A clareza é, ou foi, da ciência (veio o quântico e com ele a incerteza).

Enfim, Vitoriano garante a sua alteridade de artista nesta contemporaneidade inquieta e plural, impactante e, às vezes, temerosa e resistente, mas principalmente aberta. Essa sua exposição, que vai muito além do que foi referido aqui, é um evento marcante para as artes plásticas do Rio Grande do Norte. Falta a sociedade local lembrar-se mais do NAC, onde ocorrem mostras de alta qualidade, como é a de Vicente Vitoriano.

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GOMES, Pinharanda. Filosofia grega pré-socrática. Lisboa: Guimarães & Ca. Editores, 1973
obs. Não foi possível postar imagens. Farei isso depois.

Um comentário:

VITORIANO disse...

certeza exata: imaginação!