domingo, 9 de dezembro de 2007

Comentando o comentário do Prof. Vicente Vitoriano

vvitoriano
O Prof. Vicente Vitoriano escreveu um comentário importante sobre a citação que fiz de Chacal, na postagem abaixo desta. Certo: a arte não deve ser posta numa perspectiva puramente (ou predominatemente) salvacionista. Ou não seria bem arte, mas substituta de remédios e outras coisitas mais...
A questão, para mim, salta, entretanto, para o que Nietzsche coloca em "A origem da tragédia". Para ele, a cultura grega já vinha em declínio antes de Sócrates, e quando este aparece, a juventude é levada a uma exacerbada racionalidade: dialética, dialética, a busca da 'verdade'... É o triunfo do mito de Apolo, representante da ordem, da serenidade, da lógica, da iluminação, da justa medida (as artes plásticas de então), esquecendo-se a (irrecusável) aliança com Dioniso - a emoção, os incertos da vida, a sua 'noturnidade', os momentos de caos, os perigos, as paixões... Se a vida é tudo isso, como requerer que se viva de modo impassível, estóico?... Então é preciso cantar, dançar, escrever... Acho que foi o caso de Chacal... Quanto ao "Entre Ratos", confesso que me empolguei já de saída, e até criei uma expectativa de prática analítica social como possível interesse (inconsciente ou não) do quadrinista... Pensei nas práticas ráticas de muitos políticos brasileiros... Mas nos quadrinhos assinados por Alex Fontes há um rato comendo uma nota musical, 'roubada' a artistas que tocam guitarra... Bom demais! O grande achado do quadrinho. Meio surreal, até kafkiano... Lamento pelos ratos 'reais', que tiram para se alimentar, e ganharam a mácula de ladrões. Mas o rato do artista rouba o irroubável... Pode ser um cacoete de professora, mas, considerando que se trata de uma obra aberta, não deixo de relacionar isso com o ratismo de muitos políticos: eles roubam notas, notas-dinheiro, milhões delas, e fazendo assim roubam também notas musicais - a guitarra que o menino pobre não pode comprar...
É assim: o artista faz, diz... As relações, as leituras fazemos nós, ainda que numa semiótica de risco, como é o caso.
Que os nossos quadrinistas insistam nesse trabalho. Seja qual for a motivação, como diz o querido colega Vicente. "Porque é importante", só por isso.
Comentarei, depois, os quadrinhos de "Mundinho", de Veríssimo...

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