sexta-feira, 6 de julho de 2007

6. "BORRACHALIOTECA"... MUNDURUKU...: a arte de estar no mundo




Um borracheiro de Belo Horizonte pensou e fez uma biblioteca no espaço da borracharia. E pôs o nome: BORRACHALIOTECA. Prometeram-lhe que, se passasse no vestibular, ganharia meia bolsa de estudos. Passou e ganhou, conforme foi dito no Globo Repórter-TV Globo, de 06.07.2007... Daniel Munduruku, índio, formou-se em filosofia, história e psicologia. É professor de mestrado em Educação em Valores Humanos. Foi educador social de rua pela Pastoral de Menor de Rua de São Paulo. Já fez conferências e participou de oficinas culturais na Europa. Escreveu Histórias de índio (Companhia das Letras), para criança, e O Banquete dos Deuses (Editora Angra,SP), para nós todos. Duas histórias humanas de altíssima beleza. Há outras, certamente. Há a do catador de papel que, nas ruas de S. Paulo, um dia catou um livro, e outro, e mais outro, e começou a pedir livros a quem pôde, e arrumou tudo na salinha de sua casa. Daí a pouco quase não tinha onde dormir com a mulher, pois os livros foram vindo e ocupando os poucos metros quadrados do casebre.

Estes são, para mim, verdadeiros e grandes transformadores da sociedade. Praticam a arte de estar no mundo. Arte porque tudo isso envolve uma atitude esplendidamente (auto)criadora, semelhante à planta que brota nas feridas de um muro abandonado -no caso, o muro da história social, política e econômica. Homens assim são autênticos criadores de um ethos de nação. São educadores, no sentido mais alto da palavra. São pontos de luz numa sociedade enlutada face a tantos que praticam a des-arte de estar no mundo. Melhor dizendo: o desastre, em que muitos políticos são exímios e perfeccionistas. Contra essa asfixia moral, há esses exemplos citados aqui. Exemplos inspiradores, que oxigenam a capacidade de sonhar. Na palavra de Munduruku (2000, p. 72):

Não escolhi ser índio, (...), mas escolhi ser professor, ou melhor, confessor dos meus sonhos. Desejo narrá-los para inspirar outras pessoas a narrarem os seus, a fim de que o aprendizado ocorra pela palavra e pelo silêncio. É assim que "dou" aula... com esperança... e com sonhos... __________
MUNDURUKU, Daniel. O banquete dos deuses: conversa sobre a origem da cultura brasileira. São Paulo: Ed. Angra, 2000




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