terça-feira, 3 de julho de 2007

5. Arte (visual) brasileira: breves tópicos






1. QUE HISTÓRIA É ESSA DE PRÉ-HISTÓRIA?
Se tomamos como arte os desenhos rupestres, podemos dizer que parte da história da arte brasileira se inicia aí (como acontece analogamente em outros países). Não vou, entretanto, chamar essa arte de pré-histórica. Ela é histórica, já que informa sobre a nossa ancestralidade mais longínqua. É também documento. É narrativa visual. Mas os historiadores, em geral, continuam insistindo na expressão pré-histórica, justificando-a com o argumento de que essas manifestações pertencem a um tempo em que não se conhecia a escrita... E o que é a escrita, afinal?... Ora, as letras que aqui estou teclando são desenhos. Quando escrevo meu nome, desenho representações dos sons -as letras. Então é aceitar que a arte rupestre brotou nos tempos ágrafos, ou seja, nos tempos anteriores à invenção da escrita formal, mas é histórica. E não sejamos mais cúmplices desse modo vesgo de conceber história, desenho e escrita. São disjunções desnecessárias e danosas, que só colaboram para que se pratiquem outras tantas, a partir mesmo da escola e da universidade, onde esse discurso inadequado tende a ser mais reproduzido, pois é o que aprendemos nos livros. Uma possível e perigosa conseqüência, nesse sentido, é se pensar que os analfabetos estão fora da história, pois não dominam a escrita! Milhões de indivíduos, no Brasil, seriam... pré-históricos. Isto é sério.
2.ARTE E CULTURA
Verdade é que o senso estético não é privilégio dos civilizados. Impossível supor um povo, o mais cronologicamente distante do século XXI, sem manifestações estéticas, ainda que funcionais (cestaria, cerâmicas, estatuetas, mitos, cantos, danças...) .
A humanidade que habitou, muitos milênios atrás, o território hoje chamado Brasil, também devia dançar e cantar ritualisticamente. Entrelaçam-se, pois, as noções de arte e cultura, dependendo da nossa perspectiva: se algo é ritualístico, é cultural, uma vez que supõe transmissão de geração a geração (tradição). Será visto como arte se nosso olhar escolher uma perspectiva predominatemente estética.
3. ARTE INDÍGENA
A esse didático ponto zero da história da nossa arte - inscrições rupestres, de que o nordeste é generoso mostruário, como é o caso do Rio Grande do Norte (Lajedo da Soledade, por exemplo), Paraíba, Piauí, Bahia... -, deve-se acrescentar a arte indígena: arte plumária, cantos (de iniciação, de guerra...), pinturas corporais..., embora, para eles, tudo isso tenha sobretudo, em nossa linguagem cristã, um sentido sagrado. Porém, é uma mais que justa proposta inclusiva, já que a tendência é se começar falando da arte colonial, do barroco, o que significa uma posição eurocêntrica, de encobrimento do outro, como diz Henrique Dussel.
4. ANDAMENTOS
No andamento dessa história, temos, sim, a utilização de fantoches pelos jesuítas - com o objetivo de catequizar os indígenas por via do lúdico-, e do teatro, particularmente pelo Pe. Anchieta, que escreveu autos de Natal, da Paixão, etc., em tupi e português, e poemas nas areias das praias.
Deve-se considerar também a pintura dos holandeses Albert Eckout (1610-1666 (v. quadro de mulher negra com criança, acima)) e Frans Post (1612-1680), para cá trazidos por Mauricio de Nassau.
5. A MISSÃO ARTÍSTICA
Outro dado importante é a Missão Artística Francesa, grupo de artistas franceses que veio para o Brasil com D. João VI (1816), quando este buscou, no Rio de Janeiro, refúgio para escapar da invasão napoleônica. O rei trouxe instrumentos para montar a primeira gráfica brasileira. Imprimiram-se livros e o jornal A Gazeta do Rio de Janeiro. Os artistas da Missão fundaram a Academia Imperial de Belas Artes - onde estudou o potiguar Joaquim Fabrício Gomes de Souza (1855-1900), arquiteto e poeta, tido como o pioneiro da pintura no Rio Grande do Norte (há uma rua em Natal com seu nome), conforme Caldas (1989), enquanto o paraibano Pedro Américo (Areia-PB, 1843-Florença,1905), depois de se doutorar em ciências físicas pela Universidade de Bruxelas e estudar filosofia, literatura e pintura em Paris, assumiu, aí, a cátedra de desenho.
A Missão intensifica a influência da cultura européia na colônia, seguindo um padrão neoclássico nas pinturas, esculturas, nos desenhos, colunas, arcos, frontões.
6. A INFLUÊNCIA DE RUSKIN
Em 1856, é fundado o Liceu de Artes e Ofícios do Rio de Janeiro (Joaquim Béthencourt da Silva), que tinha como proposta formar uma consciência positiva em torno do trabalho manual. Rui Barbosa aderiu ao projeto, fez-se seu sócio benemérito e chegou a pronunciar, no Liceu, um discurso com o título de O Desenho e a Arte Industrial. Neste texto, citou partes de escritos do britânico John Ruskin (1819-1900), crítico de arte, crítico social, poeta e desenhista (é dele a frase: "É preciso ver como um cego veria se, de repente, pudesse ver", que vale por uma pedagogia radical e mínima em torno do processo criativo). O dado novo do Liceu é que seu método de ensino, inspirado nas idéias de Ruskin, estimulava a prática de estilos diferentes (ecletismo) como uma forma de permitir que o aluno se colocasse como um criador, saindo, portanto, da mera reprodução do paradigma clássico. Vale lembrar que essa instituição era mantida pela Sociedade de Bellas Artes, empenhada em fazer da cidade uma obra de arte a céu aberto -sonho buscado, hoje, principalmente por cidades turísticas de médio porte (observe Natal, seus dois portais, tímidos, mas dando um ar estético à cidade...).

7. SEMANA DE 22
Finalizando este roteiro, por certo incompleto e superficial (mas é o que é possível aqui: cabe a você, aluno/a, ampliar o caminho, descobrir veredas...), lembremos, enfim, a Semana de Arte Moderna- busca de brasilidade, de macunaimização de uma cultura fortemente europeizada desde 1500. Cultura das elites, diga-se, porque os índios que restaram, e que livres estavam da vigilância jesuítica, faziam seus torés e se deliciavam nas águas dos rios, enquanto os negros rezavam nos pejis e batucavam nos terreiros, sem nada saberem de 22. Daquela Semana. Mas isto é assunto para outra postagem. Por enquanto, veja, na abertura deste texto, a foto do quadro Costureiras, de Tarsila do Amaral.


____________
CALDAS, Dorian Gray. Artes plásticas no Rio Grande do Norte: 1920-1989. Natal: Editora Universitária/FUNPEC/SESC,1989
http://www.historiadaarte.com/prehistoriabras.html
http://www.mac.usp.br/projetos/percursos/modernistas/costureiras.html
(as fotos no alto são dos sites acima)
Veja também:
http://www.pitoresco.com.br
http://artebarroca.com.br/galeria.html
http://www.itaucultural.org.br/aplicexternas/enciclopedia_IC/index.cfm?
http://www.portalartes.com.br/




Nenhum comentário: