domingo, 17 de junho de 2007

3. SEMIÓTICA DA FOTOGRAFIA: noções

Nivaldete Ferreira

A fotografia, enfim, foi reconhecida como ferramenta científica. Colaborou para isto o pesquisador Lévi-Strauss, que se utilizou dela, como também da lingüística e da psicanálise, em suas investigações antropológicas. Hoje, a fotografia vive seu boom... Nunca se fotografou tanto, até pelas facilidades que a tecnologia tem proporcionado. Mas, no universo acadêmico, é preciso um modelo de leitura da fotografia, ainda que um modelo impreciso, fazendo um oportuno trocadilho.
Pode-se operar com a noção de semiótica denotativa e conotativa. No primeiro caso, trabalha-se o signo visual em seu sentido mais evidente, que Barthes (1984, p. 45) -veja foto acima- trata como "sentido óbvio" ou analógico: reproduções da realidade, que promovem um imediato reconhecimento, não obstruem a compreensão. É o que acontece quando vemos a fotografia de uma pessoa conhecida ou de um automóvel, por exemplo. Já na semiótica conotativa busca-se o que não está presente, as referências extra-objetais, as relações com outra(s) realidade(s). O que está em obliqüidade. Como o olhar oblíquo de Capitu, talvez a personagem mais apaixonante de Machado de Assis, e por isso mesmo, por ser uma personagem oblíqüa, ambígua, impossível de ser estancada numa única leitura, tal qual o rosto da Mona Lisa, seu olhar e seu sorriso...
Mas as relações conotativas não são, necessariamente, tão enigmáticas. Vou contar uma historinha para ilustrar esses argumentos. Dia desses, saindo à rua, percebi um carroceiro parado junto ao meio-fio, acompanhado de sua mulher. Observei: ele arrumava e desarrumava uma flor vermelha bem no alto da cabeça da égua que puxava a carroça. Fotografei, sem mais nem menos. À primeira vista é só um carroceiro parado com sua carroça, ajeitando a flor na cabeça do animal enquanto a mulher espera que ele conclua a tarefa... Aqui, estamos no plano da semiótica denotativa. Nada a acrescentar... Mas, no plano da semiótica conotativa, tenho outras leituras: eu leio a economia do país aí. Leio o capitalismo, leio as estratégias de sobrevivência de um que representa muitos. Leio o trabalho informal, ameaçado por esse mesmo sistema (daqui a pouco é possível que exijam carteira de habilitação aos carroceiros...). Isso tudo remete a conotações político-econômicas. Há outra, da ordem do poético e dos precossos de humanização. O carroceiro tratava seu animal como a um ser humano querido. Esse foi o sentido absolutamente obtuso (que em Barthes faz a interface com o sentido óbvio) que extraí da cena. O obtuso é aquilo que provoca estranhamento, que nos deixa (literalmente) sem palavras... Pois já faz algum tempo, um ano talvez, e só agora me ponho a falar dessa cena... O gesto de amorosidade do carroceiro...Talvez ele nem saiba assinar o nome, mas deu uma Aula Magna de humanidade, daquelas de calar filósofo. Aula de vida, ao vivo e sem palavras. De existência plena porque não separa do homem o bicho... Porque o bicho homem apareceu ali purificado de suas pulsões destrutivas, surgiu elevado e em estado de bem-aventurança.

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Há ainda, em Barthes, a noção de punctum (ponto), que o observador elege na fotografia. É variável de pessoa a pessoa, reação subjetiva. No caso do carroceiro, o punctum que eu elegeria talvez nem fosse a sua mão arrumando a flor vermelha na cabeça do animal. Talvez fosse o coração, se ele fosse visível.

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BARTHES, Roland. O óbvio e o obtuso. Trad. Isabel Pascoal. Lisboa: Ed. 70, 1984

Um comentário:

Tassos Lycurgo disse...

O coração não pode ser o punctum porque tudo o que verdadeiramente importa é indizível, senão inimaginável em sua completude.
Mundo estranho este. Sempre. Talvez.
Parabéns pelo texto.
Lycurgo