quinta-feira, 14 de junho de 2007

1. ESPAÇOS EMERGENTES PARA...



O profissional de arte, no Brasil, continua SUBaproveitado pelas escolas, como o demonstra a carga horária curricular destinada ao ensino de arte. Carga horária ínfima, prevalecendo ainda aquela obsoleta idéia de que arte é 'um apêndice' ou um complemento, quando não um 'descanso' para as cabecinhas que..., bem, que estão doloridas de tanto estudar ciência... Na verdade, as escolas devem contratar professores de arte até para romper com essa velha disjunção entre raciocínio lógico e expressão artística; entre o científico e o imaginário. Quero com isso dizer que professores de arte podem também trabalhar em parceria com professores de outras áreas, ductilizando a rigidez dos conteúdos exclusivamente racionais. Esta flexibilização, diga-se, vem se tornando uma prática adotada, pelo menos, nos meios editoriais internacionais, em relação à aliança entre ciência e literatura. Dou dois exemplos nos dias de hoje:
A História de Sofia e Alice no País do Quântum, dois livros (europeus) que buscam ensinar, respectivamente, e de
forma romanceada, a história da filosofia e a física quântica para leigos... Mas não podemos esquecer: os jesuítas, bem ou mal, utilizavam-se, na terra brasilis, de fantoches para impor a cultura cristã aos índios. E Monteiro Lobato foi um precursor dessa literatura que se hibridiza com a ciência, pois fez isso, e com genialidade, nas primeiras décadas do século passado. Mais recentemente, outro brasileiro, renomado físico premiado nos EUA, onde trabalha, escreveu para crianças, falando de física: Marcelo Gleiser. Antes, escrevera uma obra para a comunidade científica: "A Dança do Universo", em que faz um aproveitamento da mitologia hindu, mais exatamente do mito de Shiva, que se diz ter criado o mundo dançando. Gleiser justifica: o universo dança, se expande e se contrai. Assim, há uma relação entre a linguagem do mito e a da ciência... Quer dizer, há mais portas e dobradiças entre esses saberes do que pode supor nossa vã compreensão disjuntiva...
Claro, há quem torça o nariz... "Isso não é arte nem literatura!", dirão alguns. Ou reclamarão o não compromisso da arte com qualquer pedagogia... Sustento que se trata da utilização de recursos artísticos nos atos de conhecimento intencional. E a arte, ela própria, também deflagra conhecimentos, mas de forma livre e imprevista, e se serve da ciência (o dançarino sabe de anatomia e sistema respiratório; o pintor usa produtos químicos; as artes cênicas se envolvem com iluminação, história, semiótica; o músico tem um apuradíssimo senso matemático... ). Por outro lado, a ciência tem sua porção ficcional, usa e abusa de metáforas e trabalha com o intuitivo (Enstein dizia que suas melhores intuições lhe chegavam quando estava fazendo a barba, não quando se descabelava no laboratório...). E praticar essa pedagogia - que chamei, em minha tese de doutorado, de pedagogia performática - não impede que o pedagogo da arte se exerça, ao mesmo tempo, como artista. Que 'esqueça', na sua prática artística, toda e qualquer pedagogia e deixe aflorar a força instintual da cri-atividade, dionisicaMente!...
Nessa compreensão, esboçada aqui de forma resumida, defendo que se institucionalize a figura do Assessor Artístico, que tanto pode atuar no espaço escolar, junto a professores de outras áreas, conforme disse no início, como em outros espaços: ONGs, hospitais, presídios, fábricas, empresas e outros. Há todo um campo de trabalho em emergência nesses espaços. Quem melhor deve ocupá-lo, senão o profissional de arte?... Não falo, é óbvio, de assessorias provisórias, improvisadas, ad hoc, que certamente nem têm respaldo legal. Falo de uma assessoria que seja reconhecida legalmente e para a qual se abram vagas em concurso público. Como se abre para o professor.
Falei. É uma idéia. Como já foi dito no editorial, tudo o que está construído no mundo foi, primeiro, uma idéia.

Um comentário:

Marisardo Bezerra de Medeiros disse...

NIVALDETE...

Muita emoção. Uma viagem no tempo com o seu trabalho. De Atenas na Grécia Antiga, você chega até a escola Mambembe no interior do Nordeste. A figura do "João Redondo", nos conduz a um passado bem recente.
A riqueza literária dessa exposição, traça um perfil de uma intelectual, navegando por este mundo da cibernética.

Parabéns! Quem tem luz, clareia caminhos.