segunda-feira, 18 de junho de 2007

4. DE CATARSE, NOVELAS DA TV-GLOBO E CRIANÇAS


Nivaldete Ferreira

Pelo jeito, com o tempo as estátuas gregas se desgastam -perdem nariz, cabeça ou perna-, enquanto a etimologia de alguns termos criam outros braços, outras cabeças, outras pernas. É o caso da palavra
catarse (kátharsis), que originalmente significa "a 'purificação' das paixões e interesses estranhos que se realiza de modo privilegiado na contemplação estética" (GRIFFERO, p. 62). O termo foi tomado de empréstimo à medicina de Hipócrates e a práticas ritualísticas de descontaminação, vindo a ser utilizado por Platão como "purificação da alma relativamente ao corpo" (id. ibid.). Só com Aristóteles o termo ganha um emprego estético e geral de "purificação : pelas paixões, eliminadas como conteúdos nocivos, ou das paixões, preservadas de forma inócua". (id. ibid.) A tragédia seria um adequado instrumento para o processo catártico, a partir dos padecimentos do protagonista. A controvérsia que existe é quanto ao modo como se daria a catarse: na punição do que erra? Na transformação das paixões em virtude?... Na desobstrução afetiva e na libertação de afetos patogênicos (psicanálise)? Pela empatia (no século XX)? Por fim, na "fruição de si na fruição do outro" (id. ibid.), o que vai dar no mesmo?... Brecht ( 1978, p. 102) entende a catarse aristotélica não como "ablução realizada simplesmente de uma forma recreativa", mas como "uma ablução que tem por objetivo o prazer". Sim, ele a compreende desta forma mas é categórico na defesa do distanciamento, que apreende do teatro chinês: "O ator, mesmo que esteja representando uma personagem possessa, não deve agir como possesso; como poderia então o espectador descobrir de que está possuído o possesso?". Nada de retesar músculos, ele diz. Nada de se tornar um com o personagem. Isto tem uma lógica: ele viveu o drama da II Guerra, escreveu para uma sociedade massacrada, entorpecida, apática, emocionalmente enferma, pode-se dizer. Então teria de colaborar para a saída dessa hipnose e para a emergência da capacidade crítica. Logo, em vez da imersão, a empatia suave... "Uma técnica que servia para encobrir a causalidade social não pode ser utilizada para descobri-la. E já é tempo de surgir um teatro de gente interessada!" (op. cit., p. 167). Pois bem: as novelas da Globo fazem exatamente o contrário: olhos esbugalhados, suor pingando na testa, veia do pescoço prestes a romper, muita convicção nos atos de fala, uns inocentes demais, outros perversos em excesso, revólveres de verdade, matanças na rua, tudo dentro do princípio da absoluta verossimilhança... Daí que atores são xingados em lugares públicos e até ameaçados, porque as pessoas entram em profunda empatia, em imersão na trama da representação, não se distanciando devidamente para analisar o que vêem. Não se lembram de que se trata de uma representação... Mas isso dá Ibope -é o que dizem os roteiritas. Desta forma, triunfa o simulacro sobre o real, e o real -com toda a sua carga de problemas e de boas coisas também-, deixa de ser vivivdo.
Não sei se as teses de Brecht são acreditadas e praticadas hoje. O tempo é outro. Já se decretou a morte da história, a (quase) extinção do sujeito, a falência das ideologias, ou a troca delas por uma só: a ideologia do mercado, que a globalização vem exacerbando.

Resta uma pergunta: como é isso nas escolas?... E fora dela: será que as crianças acham que a pequena atriz que faz o papel da boneca Emíla, na TV, é a própria Emília, em carne e osso? Loga Emília, que nunca foi de carne e osso?...
Talvez as crianças, mais sábias, nem precisem de orientação, nesse sentido. Talvez elas saibam instintivamente que tudo... é brincadeira de faz-de-conta. Tomara... Senão, mais tarde, elas poderão sair por aí, de pau na mão, caçando atores e atrizes que, em tal novela, foram 'muito mauzinhos'...
Parece engraçado, mas é sério. Tem a ver com a constituição de sujeito.
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BRECHT, Bertolt. Estudos sobre teatro. Trad. Fiama Pais Brandão. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1978
GRIFFERO, Tonino. Catarse. In CARCHIA, Gianni; D´ANGELO, Paolo. (org.) Dicionário de Estética. Trad. Abílio Queirós e J. Jacinto C. Serra. Lisboa: Ed. 70, 2003

2 comentários:

thaura samara disse...

oi professora, adorei o blog.
muito bom... a sra tem as fotos do trabalho sobre a moda da semana de arte moderna?
que tem eu e carla?
eu queria vê-las.
bjs e continue escrevendo!!!

Thaura

felipe disse...

muito bom esse comentário sobre a distorçao da catarse feita pelas novelas da Globo, o que eles chamam de catarse eu chamo de cultura do terror...teve uma novela em que clocou um ônibus pegando fogo pra falar daquele ônibus q foi incendiado no RJ, acho isso uma babaquice extrema...porque nessa situação oq poderia ter sido fieto é estimular coisas mais inteligentes como incentivar aos brasileiros a viajar pelo pais e conhecer novos lugares e naum acoá-los na frente da tv dizendo não viaje porque seu onibus pode pegar fogo etc...essa cultura da violência pra mim é ridiculo e isso não se dá somente na novela se dá nos jornais onde o exagero da forma como se transmite a noticia faz todo mundo ficar assustado e cria uma imagem bem mais negativa doq realmente é...
Excelente o seu comentário...
Novela=lavagem cerebral

Felipe